{"id":5911,"date":"2022-02-01T09:10:16","date_gmt":"2022-02-01T12:10:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sodf.org.br\/wordpress\/?p=5911"},"modified":"2022-02-01T09:10:16","modified_gmt":"2022-02-01T12:10:16","slug":"projeto-aponta-potencial-beneficio-do-selenio-contra-a-doenca-de-chagas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sodf.org.br\/wordpress\/projeto-aponta-potencial-beneficio-do-selenio-contra-a-doenca-de-chagas\/","title":{"rendered":"Projeto aponta potencial benef\u00edcio do sel\u00eanio contra a doen\u00e7a de Chagas"},"content":{"rendered":"<p>Celebrado no \u00faltimo domingo (30\/1), o Dia Mundial das Doen\u00e7as Tropicais Negligenciadas chama aten\u00e7\u00e3o para infec\u00e7\u00f5es que atingem mais de 1 bilh\u00e3o de pessoas no mundo, mas recebem pouca aten\u00e7\u00e3o e investimento. Essas enfermidades afetam principalmente pessoas pobres, agravos como doen\u00e7a de Chagas, dengue, leishmaniose, hansen\u00edase, esquistossomose e verminoses, levando \u00e0 morte ou causando grandes preju\u00edzo \u00e0 sa\u00fade, com a piora das condi\u00e7\u00f5es de vida das pessoas, pois dificultam a perman\u00eancia na escola e no mercado de trabalho.<br \/>\nEntre as diversas faces da neglig\u00eancia, que inclui a falta de acesso \u00e0s medidas de preven\u00e7\u00e3o, diagn\u00f3stico e tratamento dispon\u00edveis, est\u00e1 o baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento de terapias seguras e eficazes. \u00c9 neste contexto que o Projeto Sel\u00eanio, liderado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC\/Fiocruz) em parceria com o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI\/Fiocruz), comemora mais um passo em busca de uma nova terapia para os problemas de cora\u00e7\u00e3o causados pela doen\u00e7a de Chagas cr\u00f4nica.<br \/>\nPublicado na revista cient\u00edfica internacional EClinicalMedicine, o resultado do primeiro ensaio cl\u00ednico com suplementa\u00e7\u00e3o de sel\u00eanio para pacientes com cardiopatia chag\u00e1sica apontou potencial benef\u00edcio do tratamento, em pelo menos um subgrupo de pacientes. O estudo contemplou portadores da doen\u00e7a de Chagas cr\u00f4nica com problemas do cora\u00e7\u00e3o de grau leve a moderado, que s\u00e3o classificados como est\u00e1gio B. O trabalho confirmou a seguran\u00e7a do uso do sel\u00eanio, sem registro de rea\u00e7\u00f5es adversas. No subgrupo de pacientes com cardiopatia moderada, classificada como est\u00e1gio B2, as an\u00e1lises apontaram que a evolu\u00e7\u00e3o da gravidade dos problemas melhorou ap\u00f3s o tratamento.<br \/>\nDe acordo com os autores da pesquisa, o resultado \u00e9 positivo e indica que novos estudos devem ser realizados. \u201cGeramos a primeira evid\u00eancia, obtida em ensaio cl\u00ednico randomizado, sobre benef\u00edcio do sel\u00eanio para pacientes em est\u00e1gio B2 da cardiopatia cr\u00f4nica na doen\u00e7a de Chagas. Foi um resultado estatisticamente significativo, por\u00e9m em uma amostra pequena. Agora, \u00e9 importante a confirma\u00e7\u00e3o em novas pesquisas, incluindo tempo mais longo de seguimento, mais pacientes no est\u00e1gio B2, pacientes no est\u00e1gio C e volunt\u00e1rios de diferentes regi\u00f5es do Brasil\u201d, afirma a coordenadora do projeto, pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Inova\u00e7\u00f5es em Terapias, Ensino e Bioprodutos e diretora do IOC\/Fiocruz, Tania Cremonini de Araujo-Jorge.<br \/>\n\u201cEste foi o primeiro ensaio cl\u00ednico randomizado que testou o uso do sel\u00eanio para prevenir a piora da fun\u00e7\u00e3o contr\u00e1til do cora\u00e7\u00e3o na cardiopatia chag\u00e1sica. O ensaio mostrou que existe um subgrupo de pacientes em que o tratamento foi ben\u00e9fico, o que nos animou muito e gerou perguntas para novas pesquisas\u201d, acrescenta o primeiro autor do artigo, cardiologista e pesquisador do Laborat\u00f3rio de Pesquisa Cl\u00ednica em Doen\u00e7a de Chagas do INI\/Fiocruz, Marcelo Holanda.<br \/>\nPadr\u00e3o-ouro<br \/>\nSessenta e seis pacientes atendidos no ambulat\u00f3rio de doen\u00e7a de Chagas do INI\/Fiocruz participaram da pesquisa. Para avaliar o efeito da terapia, os volunt\u00e1rios foram divididos em dois grupos. Um recebeu suplementa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria com c\u00e1psulas de sel\u00eanio e o outro, considerado como controle, recebeu c\u00e1psulas id\u00eanticas contendo um composto inerte, chamado de placebo. Cada paciente foi acompanhado durante um ano, com consultas cl\u00ednicas, exames laboratoriais e exames do cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA pesquisa seguiu protocolos considerados padr\u00e3o-ouro para ensaios cl\u00ednicos. Os volunt\u00e1rios foram alocados de forma aleat\u00f3ria nos grupos para receber o tratamento ou o placebo, atrav\u00e9s de um procedimento chamado de randomiza\u00e7\u00e3o, que faz com que os dois grupos tenham pacientes com perfis semelhantes em rela\u00e7\u00e3o a fatores que podem influenciar no resultado do estudo, como idade, g\u00eanero, gravidade dos problemas card\u00edacos e medicamentos usados para a cardiopatia.<br \/>\nAl\u00e9m disso, durante todo o acompanhamento, tanto os pacientes como os avaliadores n\u00e3o sabiam quem estava recebendo sel\u00eanio e quem estava tomando placebo. Chamado de cegamento, o procedimento evita a predisposi\u00e7\u00e3o a reconhecer sinais de melhora em quem usou a medica\u00e7\u00e3o ou piora em quem n\u00e3o usou.<br \/>\nAo final do estudo, a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a nos dois grupos foi comparada. O resultado mais relevante foi observado entre os pacientes com cardiopatia de est\u00e1gio B2, que apresentavam inicialmente perda moderada da for\u00e7a de contra\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s um ano de acompanhamento, os volunt\u00e1rios que tomaram sel\u00eanio mantiveram ou melhoraram a fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca, enquanto aqueles que tomaram placebo mantiveram a mesma condi\u00e7\u00e3o ou pioraram. Considerando a m\u00e9dia de cada grupo, a diferen\u00e7a foi estatisticamente significativa.<br \/>\nJ\u00e1 entre os pacientes com cardiopatia de est\u00e1gio B1, que apresentavam altera\u00e7\u00e3o leve da fun\u00e7\u00e3o card\u00edaca no come\u00e7o do estudo, n\u00e3o foi observada diferen\u00e7a estatisticamente significativa entre o grupo tratado e o placebo ap\u00f3s um ano de acompanhamento. No entanto, alguns dados indicam que pode haver benef\u00edcio do tratamento, e que seria indicado o seguimento por maior tempo, pois alguns casos de melhora da fun\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o foram observados apenas entre os pacientes que tomaram sel\u00eanio. No total dos participantes, em m\u00e9dia, a progress\u00e3o da doen\u00e7a foi um pouco menos acentuada entre os volunt\u00e1rios tratados com sel\u00eanio.<br \/>\nSegundo os autores do estudo, um maior tempo de seguimento dos volunt\u00e1rios deve contribuir para elucidar o potencial benef\u00edcio do sel\u00eanio. \u201cEm fun\u00e7\u00e3o dos resultados do ensaio cl\u00ednico, podemos sinalizar que a reposi\u00e7\u00e3o de sel\u00eanio poderia ser um tratamento coadjuvante para retardar a progress\u00e3o da doen\u00e7a. Agora, \u00e9 necess\u00e1rio aumentar o tempo de seguimento de um para cinco anos e verificar se esta tend\u00eancia positiva a progredir menos se mant\u00e9m. Caso isso aconte\u00e7a, o passo seguinte \u00e9 incorporar na rotina de tratamento dos pacientes com cardiopatia chag\u00e1sica cr\u00f4nica a suplementa\u00e7\u00e3o com sel\u00eanio\u201d, afirma o colaborador do estudo e pesquisador do Laborat\u00f3rio de Pesquisa Cl\u00ednica em Doen\u00e7a de Chagas do INI\/Fiocruz, Alejandro Hasslocher.<br \/>\nAl\u00e9m de expandir o n\u00famero de pacientes acompanhados e o tempo de seguimento, a pr\u00f3xima etapa da pesquisa deve investigar o aumento na dose de sel\u00eanio e a combina\u00e7\u00e3o com outro suplemento, chamado de coenzima Q10, que pode potencializar o efeito da terapia. \u201cNos \u00faltimos anos, foram publicados estudos que indicam que o benef\u00edcio cardiovascular da suplementa\u00e7\u00e3o com sel\u00eanio pode ser maior com dose de 200 microgramas, o dobro do que utilizamos no nosso ensaio cl\u00ednico, e em associa\u00e7\u00e3o com a coenzima Q10. Ent\u00e3o, na pr\u00f3xima fase da pesquisa, devemos atualizar o nosso protocolo em busca dos melhores resultados\u201d, adianta Tania Araujo-Jorge.<br \/>\nA necessidade do teste com dose mais alta do suplemento \u00e9 refor\u00e7ada pela avalia\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de sel\u00eanio no sangue dos pacientes que participaram do estudo. \u201cAo final do ensaio cl\u00ednico, observamos aumento no n\u00famero de pacientes com n\u00edveis ideais de sel\u00eanio no grupo que recebeu a suplementa\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, alguns ainda permaneceram abaixo dessa faixa, o que indica que a dose utilizada pode ter sido menor do que o necess\u00e1rio\u201d, afirma a colaboradora da pesquisa e doutoranda do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Biologia Celular e Molecular do IOC\/Fiocruz, Beatriz Gonzaga.<br \/>\nEsfor\u00e7o cient\u00edfico<br \/>\nO Projeto Sel\u00eanio \u00e9 resultado de um longo esfor\u00e7o cient\u00edfico em busca de uma terapia para um agravo que causa alta mortalidade, mas segue negligenciado. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), entre seis e sete milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o portadoras da doen\u00e7a de Chagas cr\u00f4nica no mundo. No Brasil, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade aponta que existem um a quatro milh\u00f5es de afetados, sendo que muitos casos n\u00e3o s\u00e3o sequer diagnosticados.<br \/>\nOs problemas do cora\u00e7\u00e3o ocorrem em cerca de 30% dos portadores da doen\u00e7a de Chagas cr\u00f4nica, atingindo aproximadamente 400 a 900 mil pessoas apenas no Brasil. Cerca de 4,5 mil brasileiros morrem de doen\u00e7a de Chagas por ano, sendo que a maioria dessas mortes \u00e9 causada por dist\u00farbios card\u00edacos, como arritmia, insufici\u00eancia card\u00edaca, tromboembolismo e morte s\u00fabita.<br \/>\n\u201cA cardiopatia chag\u00e1sica cr\u00f4nica, entre todas as cardiopatias, apresenta a pior morbimortalidade. Quando comparamos desfechos cl\u00ednicos, de interna\u00e7\u00e3o e morte, a cardiopatia chag\u00e1sica apresenta pior progn\u00f3stico. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual \u00e9 necess\u00e1rio buscar novas estrat\u00e9gias de tratamento\u201d, enfatiza o infectologista Alejandro Hasslocher.<br \/>\nDois fatores contribuem para os problemas card\u00edacos na doen\u00e7a de Chagas. Causador do agravo, o parasito Trypanosoma cruzi se aloja no cora\u00e7\u00e3o e ataca o m\u00fasculo card\u00edaco. Na tentativa de combater o parasito, o organismo desencadeia uma rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria, que nem sempre \u00e9 bem controlada e pode ser exagerada, de modo a agravar ainda mais as les\u00f5es no \u00f3rg\u00e3o. Esse processo ocorre durante anos e, como resultado, forma-se uma esp\u00e9cie de cicatriz no m\u00fasculo card\u00edaco, prejudicando sua capacidade de bombear o sangue e de realizar normalmente a atividade el\u00e9trica do cora\u00e7\u00e3o. Assim, cerca de 30 anos depois da infec\u00e7\u00e3o, os pacientes come\u00e7am a apresentar os sintomas da cardiopatia chag\u00e1sica, em geral, com altera\u00e7\u00f5es no eletrocardiograma, que s\u00e3o o primeiro sinal da forma card\u00edaca da doen\u00e7a de Chagas.<br \/>\nAs op\u00e7\u00f5es atualmente dispon\u00edveis para o tratamento s\u00e3o as mesmas utilizadas por pacientes que apresentam cardiopatia por outras causas, como por exemplo, por infarto. S\u00e3o medicamentos que podem melhorar a fun\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o atacam as causas do problema em si, e n\u00e3o conseguem impedir que a cardiopatia chag\u00e1sica piore progressivamente.<br \/>\n\u201cOs tratamentos dispon\u00edveis para a cardiopatia chag\u00e1sica s\u00e3o extrapolados de outras doen\u00e7as, principalmente da cardiopatia isqu\u00eamica. Entretanto, a doen\u00e7a de Chagas apresenta particularidades por ser uma doen\u00e7a inflamat\u00f3ria, progressiva e com participa\u00e7\u00e3o do sistema imunol\u00f3gico. Uma terapia espec\u00edfica, que interrompa estas caracter\u00edsticas, pode prevenir sintomas e a piora da sa\u00fade do indiv\u00edduo\u201d, aponta o cardiologista Marcelo Holanda.<br \/>\nComo tudo come\u00e7ou<br \/>\nFoi tendo em vista este cen\u00e1rio, que a pesquisadora Tania Araujo-Jorge, m\u00e9dica que se especializou no estudo do parasito T. cruzi e dos mecanismos biol\u00f3gicos envolvidos na doen\u00e7a de Chagas, voltou seu olhar para o sel\u00eanio. Ela considerou que prote\u00ednas que t\u00eam essa mol\u00e9cula em sua composi\u00e7\u00e3o, chamadas de selenoproteinas, t\u00eam a\u00e7\u00e3o antioxidante e, muitas vezes, podem atuar na modula\u00e7\u00e3o de inflama\u00e7\u00e3o. Por isso, em 1998, iniciou uma linha de pesquisas para investigar o papel do sel\u00eanio na doen\u00e7a de Chagas.<br \/>\nOs primeiros resultados dessa investiga\u00e7\u00e3o foram publicados em 2002. Um artigo apontou que pacientes com cardiopatia chag\u00e1sica apresentavam baixos n\u00edveis de sel\u00eanio no sangue. Outro trabalho, realizado com camundongos, considerados como modelo experimental, mostrou que a ingest\u00e3o de sel\u00eanio influenciava na mortalidade na fase aguda do agravo. Nos anos seguintes, os pesquisadores prosseguiram com os estudos em camundongos, at\u00e9 demonstrar que o sel\u00eanio poderia reverter les\u00f5es card\u00edacas na fase cr\u00f4nica da doen\u00e7a de Chagas experimental.<br \/>\n\u201cOs resultados dos estudos em modelo experimental nos impressionaram muito. Pela primeira vez, vimos associa\u00e7\u00e3o da mortalidade em uma doen\u00e7a parasit\u00e1ria com a dieta do animal, sendo que a \u00fanica varia\u00e7\u00e3o entre os grupos era o sel\u00eanio. Esses estudos foram fundamentais para que pud\u00e9ssemos propor uma terapia para os pacientes\u201d, conta Tania.<br \/>\nEm 2009, a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) aprovou o pedido de realiza\u00e7\u00e3o do ensaio cl\u00ednico. Por\u00e9m, os pesquisadores precisaram superar diversos desafios para a realiza\u00e7\u00e3o da pesquisa. Em primeiro lugar, n\u00e3o havia produ\u00e7\u00e3o de c\u00e1psulas de sel\u00eanio no Brasil. Ap\u00f3s algumas tentativas, um acordo foi firmado com a empresa Catalent Brasil, que forneceu gratuitamente as capsulas de sel\u00eanio e placebo para o projeto.<br \/>\nAl\u00e9m disso, ainda em 2005, houve uma mudan\u00e7a de regulamenta\u00e7\u00e3o: o sel\u00eanio, que era classificado como suplemento alimentar na dose utilizada no ensaio cl\u00ednico, passou a ser considerado como medicamento pela Anvisa, o que tornou maior a lista de exig\u00eancias que devem ser cumpridas para a realiza\u00e7\u00e3o do ensaio cl\u00ednico. Em 2018, a subst\u00e2ncia voltou a ter classifica\u00e7\u00e3o de suplemento, mas, neste momento, o estudo j\u00e1 estava em fase de conclus\u00e3o.<br \/>\nCom o protocolo do ensaio cl\u00ednico publicado em 2014, foram necess\u00e1rios tr\u00eas anos para concluir o recrutamento dos pacientes. O acompanhamento do \u00faltimo volunt\u00e1rio foi conclu\u00eddo em 2018, quando foi iniciada a an\u00e1lise dos resultados. A etapa final do trabalho sofreu ainda o impacto da pandemia de Covid-19, que gerou alta demanda de trabalho para os profissionais envolvidos na pesquisa.<br \/>\nA coordenadora do projeto destaca que, desde a primeira coleta de amostra, em 2014, 30 pesquisadores atuaram no ensaio cl\u00ednico, e s\u00e3o coautores da publica\u00e7\u00e3o de 2021. Tania enfatiza a import\u00e2ncia das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas na busca de solu\u00e7\u00f5es para doen\u00e7as negligenciadas.<br \/>\n\u201cNa plataforma ClinicalTrials.gov [base de dados para registro de ensaios cl\u00ednicos], est\u00e3o registrados mais de 68 mil estudos ligados ao c\u00e2ncer e mais de 11 mil para HIV. J\u00e1 para doen\u00e7a de Chagas, h\u00e1 apenas 65 pesquisas, sendo 28 no Brasil. \u00c9 isso que caracteriza uma doen\u00e7a negligenciada. A rede p\u00fablica \u00e9 quem est\u00e1 \u00e0 frente das pesquisas em Chagas no Brasil e no mundo\u201d, ressalta a pesquisadora.<br \/>\nLiderado pelo IOC e INI, ambos da Fiocruz, o ensaio cl\u00ednico do Projeto Sel\u00eanio contou com a parceria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Escola Naval. No IOCFiocruz, os laborat\u00f3rios de Inova\u00e7\u00f5es em Terapias, Ensino e Bioprodutos e de Biologia Molecular de Doen\u00e7as End\u00eamicas atuaram na pesquisa. O estudo foi financiado pela Fiocruz, Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas Filho de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes).<br \/>\nLegado social<br \/>\nComo outras infec\u00e7\u00f5es negligenciadas, a doen\u00e7a de Chagas atinge principalmente pessoas pobres. O parasito Trypanosoma cruzi \u00e9 transmitido por insetos popularmente conhecidos como barbeiros, e se instala no organismo quase sem causar sintomas. Sem acesso f\u00e1cil aos servi\u00e7os de sa\u00fade e ao exame que poderia identificar a infec\u00e7\u00e3o, que ainda precisa de pedido m\u00e9dico para ser realizado, a maioria dos portadores n\u00e3o recebe o diagn\u00f3stico na fase inicial da infec\u00e7\u00e3o, quando a cura com um tratamento antiparasit\u00e1rio \u00e9 mais efetiva.<br \/>\nMuitos vivem e morrem infectados, sem saber, enquanto outros descobrem a enfermidade d\u00e9cadas ap\u00f3s o cont\u00e1gio, quando aparecem complica\u00e7\u00f5es, como a cardiopatia. Nessa fase, o medicamento antiparasit\u00e1rio ainda \u00e9 indicado, mas tem menos efetividade. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1ria avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica para a prescri\u00e7\u00e3o nos casos graves.<br \/>\nAo mesmo tempo que se desenvolve de forma silenciosa, a doen\u00e7a de Chagas \u00e9 silenciada, pois os portadores n\u00e3o t\u00eam poder ou recursos para tornarem seus problemas e suas demandas vis\u00edveis. Por isso, al\u00e9m dos resultados cient\u00edficos, o Projeto Sel\u00eanio desenvolveu um legado social.<br \/>\nEm 2015, os pesquisadores iniciaram um curso de extens\u00e3o voltado para portadores da doen\u00e7a de Chagas com o tema Falamos de Chagas com CienciArte. Coordenado pelo Laborat\u00f3rio de Inova\u00e7\u00f5es em Terapias, Ensino e Bioprodutos, o curso ofereceu edi\u00e7\u00f5es anuais de 2015 a 2019, promovendo oficinas pr\u00e1ticas, nas quais os participantes puderam trocar experi\u00eancias e refletir sobre o agravo, n\u00e3o apenas como uma infec\u00e7\u00e3o causada por um parasito, mas como um problema social, econ\u00f4mico e cultural.<br \/>\nA iniciativa contribuiu para a funda\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Rio Chagas, em 2016, formada por portadorese afetados pela doen\u00e7a, os familiares, amigos e profissionais de sa\u00fade. Por demanda do grupo, em 2019, os pesquisadores desenvolveram uma expedi\u00e7\u00e3o itinerante, chamada de Expresso Chagas 21, que levou informa\u00e7\u00f5es sobre o agravo e ofereceu oportunidade de diagn\u00f3stico em cidades mineiras historicamente afetadas pela doen\u00e7a.<br \/>\n\u201cFoi uma viagem muito importante. A doen\u00e7a s\u00f3 mostra a cara depois de 20, 30 anos. Ent\u00e3o tem que fazer o exame, tomar a medica\u00e7\u00e3o e, mesmo se n\u00e3o tiver cura, tentar viver mais. A gente sentiu gosto de levar isso \u00e0s pessoas\u201d, diz a presidente da Associa\u00e7\u00e3o Rio Chagas, Josefa de Oliveira Silva, que recorda sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria com a doen\u00e7a de Chagas.<br \/>\n\u201cQuando eu era crian\u00e7a, em Pernambuco, a gente brincava com os barbeiros em casa. Eles picavam a gente, co\u00e7ava, mas, na ro\u00e7a, ningu\u00e9m sabia o que era Chagas. Quando eu tinha 25 anos, em Campina Grande, o m\u00e9dico disse que eu tinha o cora\u00e7\u00e3o um pouco crescido. S\u00f3 quando meu esposo faleceu e eu vim morar no Rio de Janeiro, que fiz o exame e descobri que tinha Chagas\u201d, conta Josefa, de 68 anos, que faz tratamento no INI\/Fiocruz h\u00e1 18 anos.<br \/>\nCom resultados publicados em 2021 na revista cient\u00edfica Plos Neglected Tropical Diseases, o Expresso Chagas 21 passou por quatro cidades com hist\u00f3rico de circula\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a de Chagas: Gr\u00e3o Mogol, Espinosa, Montes Claros e Lassance \u2013 local onde o cientista Carlos Chagas descreveu o agravo pela primeira vez, em 1901. Al\u00e9m disso, a expedi\u00e7\u00e3o teve uma parada na capital mineira, Belo Horizonte.<br \/>\nMontado em escolas e universidades, o projeto incluiu oficinas, jogos, atividades de laborat\u00f3rio e rodas de conversa ambientados em cen\u00e1rios caracterizados como vag\u00f5es de trem, em refer\u00eancia ao laborat\u00f3rio montado por Carlos Chagas em um trem no come\u00e7o do s\u00e9culo passado. As atividades receberam mais de 2 mil visitantes, incluindo cidad\u00e3os e profissionais de sa\u00fade, dos quais 600 se cadastraram para atuar em futuras atividades de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e associa\u00e7\u00f5es locais de portadores da doen\u00e7a de Chagas.<br \/>\nUm levantamento apontou que 80% dos visitantes desconheciam a possibilidade de tratamento com medicamento antiparasit\u00e1rio. Entre 1.110 participantes que solicitaram o teste de diagn\u00f3stico, 222 apresentaram resultado positivo, o que corresponde a 20%, num processo de busca ativa. As pessoas diagnosticadas foram encaminhadas para atendimento em unidades de sa\u00fade locais atrav\u00e9s de parceria com as secretarias municipais de sa\u00fade.<br \/>\nConsiderando o contexto da doen\u00e7a de Chagas, os autores do estudo destacam a import\u00e2ncia do Expresso Chagas 21 tanto para os pesquisadores como para as pessoas afetadas. \u201c\u00c9 fundamental sair do laborat\u00f3rio e ver que Chagas \u00e9 muito mais do que uma enfermidade. \u00c9 uma problem\u00e1tica, com v\u00e1rias dimens\u00f5es, incluindo a biom\u00e9dica, a epidemiol\u00f3gica, a pol\u00edtico-econ\u00f4mica e a sociocultural\u201d, destaca Tania Araujo-Jorge.<br \/>\n\u201cO tempo total de desenvolvimento de um novo medicamento \u00e9 longo e s\u00f3 ao final desse processo, a pesquisa chegar\u00e1, de fato, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Assim, \u00e9 de extrema import\u00e2ncia estreitar a dist\u00e2ncia entre a academia e a sociedade. Para o pesquisador, essa experi\u00eancia possibilita humanizar a pesquisa. Para o participante, \u00e9 uma possibilidade de empoderamento e de desmistificar a ci\u00eancia\u201d, salienta o p\u00f3s-doutorando do IOC\/Fiocruz, Roberto Ferreira, colaborador do Projeto Sel\u00eanio e um dos coordenadores do Expresso Chagas 21.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celebrado no \u00faltimo domingo (30\/1), o Dia Mundial das Doen\u00e7as Tropicais Negligenciadas chama aten\u00e7\u00e3o para infec\u00e7\u00f5es que atingem mais de 1 bilh\u00e3o de pessoas no mundo, mas recebem pouca aten\u00e7\u00e3o e investimento. 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