{"id":5795,"date":"2022-01-11T11:30:07","date_gmt":"2022-01-11T14:30:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sodf.org.br\/wordpress\/?p=5795"},"modified":"2022-01-11T11:30:07","modified_gmt":"2022-01-11T14:30:07","slug":"csp-de-janeiro-aborda-integridade-e-etica-na-pesquisa-e-na-publicacao-cientifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sodf.org.br\/wordpress\/csp-de-janeiro-aborda-integridade-e-etica-na-pesquisa-e-na-publicacao-cientifica\/","title":{"rendered":"CSP de janeiro aborda integridade e \u00e9tica na pesquisa e na publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica"},"content":{"rendered":"<p>Qu\u00e3o ativo deve ser o papel das revistas e editores na supervis\u00e3o \u00e9tica no processo editorial? Quais os limites e as possibilidades de se apreciar aspectos relativos \u00e0 \u00e9tica em pesquisa e \u00e0 integridade nesse processo? Essas s\u00e3o indaga\u00e7\u00f5es que t\u00eam exigido uma reflex\u00e3o densa sobre a \u00e9tica em publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. No editorial da primeira edi\u00e7\u00e3o do ano de Cadernos de Sa\u00fade P\u00fablica, s\u00e3o apresentados alguns aspectos cr\u00edticos da supervis\u00e3o \u00e9tica no processo de editora\u00e7\u00e3o com base nas diretrizes \u00e9ticas nacional e internacional e delibera\u00e7\u00f5es do Comit\u00ea de \u00c9tica na Publica\u00e7\u00e3o (COPE). Tais diretrizes t\u00eam auxiliado as equipes editoriais na ado\u00e7\u00e3o de medidas e na tomada de decis\u00e3o sobre as publica\u00e7\u00f5es submetidas \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAssinado por Miriam Ventura e Suelen Carlos de Oliveira, o editorial considera que a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica envolve a atua\u00e7\u00e3o de diferentes atores e uma s\u00e9rie de atos e compromissos baseados na confian\u00e7a m\u00fatua e compartilhamento de responsabilidades, que v\u00e3o desde o planejamento da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento at\u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o e o uso dos resultados pela sociedade.<br \/>\nNo que se refere \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca e indissoci\u00e1vel entre integridade na pesquisa e a \u00e9tica em publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O processo editorial \u00e9 um \u201cl\u00f3cus sentinela\u201d na identifica\u00e7\u00e3o, na preven\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o de m\u00e1s condutas, e elemento-chave para o bom funcionamento do sistema de pesquisa na difus\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico de qualidade e confi\u00e1vel.<br \/>\nDisputas de autoria e coautoria, conflitos de interesses, pl\u00e1gio e publica\u00e7\u00f5es duplicadas, pesquisa sem consentimento livre e esclarecido, fabrica\u00e7\u00e3o e falsifica\u00e7\u00e3o de dados, uso indevido de informa\u00e7\u00f5es de banco de dados s\u00e3o alguns exemplos de m\u00e1s condutas. \u00c9 imposs\u00edvel ter uma publica\u00e7\u00e3o id\u00f4nea se houver m\u00e1 conduta na sua realiza\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, o processo editorial demanda pol\u00edticas e boas pr\u00e1ticas em prol da integridade na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, possibilitando a aprecia\u00e7\u00e3o \u00e9tica das publica\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da cient\u00edfica, e a preven\u00e7\u00e3o de m\u00e1s condutas.<br \/>\nA atividade cient\u00edfica \u00e9 sempre din\u00e2mica e ampla, reflete culturas e din\u00e2micas sociais globais e locais. As normas \u00e9ticas em pesquisa podem variar nos pa\u00edses e entre campos de conhecimento espec\u00edficos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias para a condu\u00e7\u00e3o dos estudos, \u00e0 necessidade de pr\u00e9via avalia\u00e7\u00e3o \u00e9tica para sua pr\u00e1tica e \u00e0 forma como \u00e9 institucionalizada a revis\u00e3o \u00e9tica. Considerando esta diversidade das pr\u00e1ticas cient\u00edficas e institucionais e o pluralismo \u00e9tico, a comunidade internacional tem chegado a consensos em rela\u00e7\u00e3o a par\u00e2metros e diretrizes \u00e9ticas que devem ser universalmente respeitados. Este contexto plural e din\u00e2mico traz maior complexidade e amplia as responsabilidades de pesquisadores e editores na gest\u00e3o editorial cient\u00edfica.<br \/>\nO COPE recomenda que a supervis\u00e3o \u00e9tica deve incluir, mas n\u00e3o se limitar a pol\u00edticas de consentimento \u00e0 publica\u00e7\u00e3o, cuidados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conduta \u00e9tica de pesquisa com seres humanos e popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, manuseio de dados confidenciais e pr\u00e1ticas \u00e9ticas de neg\u00f3cios\/marketing. Destaca quatro crit\u00e9rios, al\u00e9m dos usualmente utilizados durante a revis\u00e3o editorial no \u00e2mbito da supervis\u00e3o: (1) validade cient\u00edfica-metodol\u00f3gica e a contribui\u00e7\u00e3o do estudo para o campo de conhecimento e a sociedade; (2) pondera\u00e7\u00e3o de riscos e benef\u00edcios da investiga\u00e7\u00e3o para popula\u00e7\u00e3o participante; (3) procedimentos adotados de mitiga\u00e7\u00e3o\/minimiza\u00e7\u00e3o de riscos e danos individuais e coletivos; (4) comprova\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise do cumprimento de exig\u00eancias regulamentares, institucionais e\/ou legais, relacionadas \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o \u00e9tica do estudo.<br \/>\nA pol\u00edtica editorial de revis\u00e3o por pares especialistas \u00e9 medida adotada largamente pelas revistas e indispens\u00e1vel na an\u00e1lise da validade cient\u00edfica metodol\u00f3gica e contribui\u00e7\u00e3o do estudo para o campo de conhecimento e a sociedade. Os especialistas pareceristas verificam poss\u00edveis vieses e cofatores n\u00e3o considerados que podem comprometer os resultados e a admissibilidade dos procedimentos adotados no estudo pela comunidade cient\u00edfica. Com base na produ\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica do campo, os revisores adensam sua avalia\u00e7\u00e3o e recomendam atualiza\u00e7\u00f5es e esclarecimentos sobre esses e outros aspectos relacionados ao escopo da revista.<br \/>\nAs informa\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas e \u00e9ticas sobre o estudo realizado permitem tamb\u00e9m apreciar os crit\u00e9rios de pondera\u00e7\u00e3o de riscos e benef\u00edcios da investiga\u00e7\u00e3o e os procedimentos adotados para a minimiza\u00e7\u00e3o de riscos e danos para a popula\u00e7\u00e3o investigada ou coletivos. A n\u00e3o clareza dos procedimentos adotados justifica que editores requeiram informa\u00e7\u00f5es adicionais para seguir o processo editorial.<br \/>\nNa prote\u00e7\u00e3o da vida privada e dignidade das pessoas envolvidas nos estudos s\u00e3o exigidas a declara\u00e7\u00e3o e a explicita\u00e7\u00e3o do processo de consentimento livre e esclarecido dos participantes das pesquisas. Alguns temas s\u00e3o ainda objeto de d\u00favidas e envolvem aspectos \u00e9ticos espec\u00edficos: o uso e compartilhamento de bancos de dados e os cuidados relativos \u00e0 privacidade das informa\u00e7\u00f5es, autoriza\u00e7\u00e3o de uso e seguran\u00e7a, com regulamenta\u00e7\u00e3o nacional e internacional espec\u00edficas; aplica\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos e t\u00e9cnicas comumente utilizados pelas ci\u00eancias sociais e humanas na pesquisa no campo sa\u00fade, como estudos etnogr\u00e1ficos, observa\u00e7\u00f5es participantes, intera\u00e7\u00e3o com pessoas on-line para fins de pesquisa. H\u00e1 consenso \u00e9tico que todas essas modalidades devem ser consideradas interven\u00e7\u00f5es dependentes de aprova\u00e7\u00e3o \u00e9tica pr\u00e9via por comit\u00eas do projeto de pesquisa e devem obter consentimento dos participantes, com possibilidades de dispensa autorizada pelos comit\u00eas e devidamente fundamentadas, justificadas, com explicita\u00e7\u00e3o dos cuidados adicionais e a conduta a ser adotada a posteriori Tais deveres \u00e9ticos est\u00e3o previstos e consensuados internacionalmente desde 1947, no C\u00f3digo de Nuremberg, e reiterados e atualizados nos diferentes contextos sociopol\u00edticos, campos de conhecimento e normas \u00e9ticas ao longo de d\u00e9cadas.<br \/>\nO ideal seria evitar a realiza\u00e7\u00e3o de pesquisas eticamente inadequadas, mas nem sempre \u00e9 poss\u00edvel identific\u00e1-las na avalia\u00e7\u00e3o dos projetos pelos comit\u00eas de \u00e9tica em pesquisa e no pr\u00f3prio processo de supervis\u00e3o \u00e9tica editorial. A postura ativa, consciente e respons\u00e1vel da rede de atores na identifica\u00e7\u00e3o das m\u00e1s pr\u00e1ticas \u00e9 primordial na supera\u00e7\u00e3o dessas limita\u00e7\u00f5es, estimulando-se o encaminhamento de obje\u00e7\u00f5es e comprova\u00e7\u00f5es aos editores das m\u00e1s condutas observadas pelos leitores nos estudos publicados. Os editores t\u00eam adotado medidas como a corre\u00e7\u00e3o e retrata\u00e7\u00e3o de artigos de acordo com a gravidade da conduta verificada ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o, alertando toda a comunidade acad\u00eamica e sociedade sobre a ocorr\u00eancia.<br \/>\nMedidas como a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o de avalia\u00e7\u00f5es \u00e9ticas anteriores ou a aus\u00eancia destas &#8211; quando n\u00e3o exigida no local do estudo ou no campo espec\u00edfico de conhecimento &#8211; e a retrata\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o de artigos publicados s\u00e3o sempre excepcionais. Exige-se, portanto, avalia\u00e7\u00e3o cuidadosa da equipe editorial em di\u00e1logo com as\/os autoras\/es, suas institui\u00e7\u00f5es e outras partes quando cab\u00edvel, zelando pelo direito ao contradit\u00f3rio e ampla defesa, e delibera\u00e7\u00f5es devidamente fundamentadas e orientadas pelos valores que envolvem \u00e0 integridade da pesquisa.<br \/>\n\u00c0 vista dos variados interesses que permeiam as rela\u00e7\u00f5es e atividades de pesquisa e podem influenciar sua condu\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio processo editorial, a identifica\u00e7\u00e3o e tratamento de poss\u00edveis conflitos de interesses no processo editorial. Os conflitos podem ser de natureza financeira, pessoal, acad\u00eamica, relacionada \u00e0 afilia\u00e7\u00e3o institucional, pol\u00edtica ou mesmo religi\u00e3o. Podem, ainda, ser relacionados \u00e0 tecnologia utilizada na pesquisa ou na apresenta\u00e7\u00e3o, assim como \u00e0 tecnologia concorrente a essa. H\u00e1 consenso sobre a import\u00e2ncia de identific\u00e1-los e da impossibilidade de elimin\u00e1-los completamente das publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas.<br \/>\nNesse sentido, o COPE aconselha que os peri\u00f3dicos devem estabelecer pol\u00edticas institucionais claras e objetivas que permitam a identifica\u00e7\u00e3o e o tratamento adequado dos conflitos de interesses. A declara\u00e7\u00e3o da fonte de financiamento do estudo, dos poss\u00edveis conflitos de interesses existentes e mesmo a natureza do v\u00ednculo entre pesquisadores e financiadores s\u00e3o algumas das exig\u00eancias requeridas pelos editores. \u00c9 recomendado tamb\u00e9m que os editores incluam orienta\u00e7\u00f5es sobre o processo de tratamento desses conflitos identificados pelos autores, revisores e editores ou entre eles. Informar sobre o potencial conflito de interesse de qualquer natureza no processo editorial e de divulga\u00e7\u00e3o possibilita maior transpar\u00eancia e credibilidade na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<br \/>\nAs boas pr\u00e1ticas editoriais recomendam o fortalecimento das normas \u00e9ticas consolidadas internacionalmente e a supervis\u00e3o \u00e9tica cuidadosa na aprecia\u00e7\u00e3o dos estudos para a publica\u00e7\u00e3o. Os editores t\u00eam legitimidade reconhecida pela comunidade cient\u00edfica no sentido de exigir o cumprimento das normas consensuadas internacionalmente.<br \/>\n\u00c9 certo que os processos de supervis\u00e3o \u00e9tica sempre ser\u00e3o limitados e para atingir este valor \u00e9tico da integridade cada ator deve desempenhar seu papel de forma ativa, consciente e respons\u00e1vel. As institui\u00e7\u00f5es devem estabelecer pol\u00edticas para promover a integridade acad\u00eamica, investigar e resolver casos de m\u00e1 conduta. O pesquisador deve aderir \u00e0s boas pr\u00e1ticas e ser respons\u00e1vel na realiza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o da pesquisa e divulga\u00e7\u00e3o dos resultados. O peri\u00f3dico cient\u00edfico deve encorajar a integridade na pesquisa e zelar pela qualidade e idoneidade da informa\u00e7\u00e3o. O p\u00fablico deve exercer cidadania participativa e usar de forma consciente e cr\u00edtica os resultados de pesquisa e os canais dispon\u00edveis de den\u00fancia das m\u00e1s pr\u00e1ticas.<br \/>\n\u201c\u00c9 essencial a percep\u00e7\u00e3o do valor transformador do conhecimento gerado pela pesquisa, como um direito humano e fundamental ao bem-estar e ao progresso cient\u00edfico. Igualmente urgente a tomada de consci\u00eancia \u00e9tica sobre as a\u00e7\u00f5es de cada um de n\u00f3s na produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico\u201d, concluem.<br \/>\nDentre os artigos da publica\u00e7\u00e3o, na se\u00e7\u00e3o Perspectivas, o artigo Interdisciplinaridade na estrat\u00e9gia de controle dos vetores urbanos das arboviroses: uma dimens\u00e3o necess\u00e1ria para o Brasil, de Eduardo Dias Wermelinger, pesquisador da ENSP,  aponta que a complexidade urbana presente nas grandes cidades brasileiras tem favorecido a prolifera\u00e7\u00e3o de vetores de arboviroses, deixando a popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel \u00e0 circula\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de v\u00e1rios arbov\u00edrus. Em grande parte, essa complexidade foi constru\u00edda por amplos territ\u00f3rios historicamente ocupados desordenadamente por comunidades socialmente vulner\u00e1veis, com frequ\u00eancia inseridas em um cotidiano de viola\u00e7\u00e3o de direitos. Na aus\u00eancia de vacinas para a maioria dos arbov\u00edrus atualmente circulando no meio urbano brasileiro, a profilaxia depende, em grande medida, do controle dos vetores urbanos, com especial destaque para o Aedes aegypti. O hist\u00f3rico de resultados profil\u00e1ticos insuficientes desde o s\u00e9culo passado para a profilaxia da dengue com as usuais estrat\u00e9gias de controle de vetores, muito dependentes dos paliativos inseticidas, propiciaram, na segunda d\u00e9cada deste s\u00e9culo, a recircula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da febre amarela e a importa\u00e7\u00e3o de novos v\u00edrus para o Brasil, como a Zika e Chikungunya. Diante da vulnerabilidade para a circula\u00e7\u00e3o de arbov\u00edrus no meio urbano brasileiro e da aus\u00eancia de medidas profil\u00e1ticas eficazes no combate aos vetores, \u00e9 real o risco da transmiss\u00e3o de outros arbov\u00edrus como o Mayaro e o v\u00edrus do Nilo Ocidental. Por outro lado, os m\u00e9todos alternativos propostos para o controle dos vetores urbanos, com destaque para as libera\u00e7\u00f5es de mosquitos modificados geneticamente ou infectados com a Wolbachia, ainda n\u00e3o ofereceram resultados profil\u00e1ticos desejados, sobretudo nos amplos e densamente populosos territ\u00f3rios end\u00eamicos das cidades brasileiras.<br \/>\nPara Eduardo, o sistema de cren\u00e7as presente no paradigma que orienta as a\u00e7\u00f5es de controle de vetores sofreu forte influ\u00eancia com o advento dos inseticidas organossint\u00e9ticos, inaugurados com o DDT na d\u00e9cada de 1940. A partir do DDT, o paradigma se consolidou dentro de uma forte concep\u00e7\u00e3o tecnicista em que o resultado causal para a solu\u00e7\u00e3o no controle de insetos vetores pode ser alcan\u00e7ado com o uso de tecnologias representadas nos modernos inseticidas. Essa cren\u00e7a se manteve mesmo ap\u00f3s os problemas advindos do uso continuado e indiscriminado desses inseticidas, como a resist\u00eancia dos insetos alvo, a contamina\u00e7\u00e3o do meio ambiente e a toxicidade acumulativa na cadeia tr\u00f3fica. Como resposta, foram desenvolvidos novos inseticidas, com novas classes de produtos ativos, menos t\u00f3xicos, como organofosforados (p.ex.: temef\u00f3s) e piretr\u00f3ides (p.ex.: cipermetrina). A partir da d\u00e9cada de 1970, foi elaborado o conceito de Manejo Integrado de Pragas ou Controle Integrado de Vetores, aperfei\u00e7oando o paradigma tecnicista ao preconizar a utiliza\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de outras tecnologias para mitigar a depend\u00eancia dos inseticidas qu\u00edmicos e obter um controle mais racional, eficaz, menos t\u00f3xico e ambientalmente mais amig\u00e1vel. Com isso, outros m\u00e9todos de controle como manejo ambiental, controle biol\u00f3gico, uso de ferom\u00f4nios, controle gen\u00e9tico e controle f\u00edsico foram valorizados e preconizados numa estrat\u00e9gia integrada com o controle qu\u00edmico, objetivando reduzir a depend\u00eancia dos inseticidas.<br \/>\nContudo, segundo ele, a estrat\u00e9gia integrada n\u00e3o tem conseguido resultados satisfat\u00f3rios no controle dos insetos urbanos vetores de arboviroses em ambientes urbanos complexos. O paradigma da estrat\u00e9gia integrada consegue oferecer boa efic\u00e1cia no controle de insetos pragas agr\u00edcolas, nos ecossistemas agr\u00edcolas, em particular nas monoculturas, onde s\u00e3o limitados os obst\u00e1culos \u00e0 execu\u00e7\u00e3o das diferentes a\u00e7\u00f5es de controle. As avalia\u00e7\u00f5es das efici\u00eancias e as decis\u00f5es s\u00e3o mais f\u00e1ceis, uma vez que os crit\u00e9rios de an\u00e1lise s\u00e3o basicamente financeiros. Contrariamente, no combate aos insetos urbanos vetores de doen\u00e7as, a estrat\u00e9gia integrada n\u00e3o se viabiliza com facilidade porque precisa ser realizada dentro de m\u00faltiplas e diferentes propriedades privadas que podem oferecer in\u00fameros obst\u00e1culos ambientais e psicossociais \u00e0s a\u00e7\u00f5es de controle. Com frequ\u00eancia o territ\u00f3rio \u00e9 heterog\u00eaneo, com in\u00fameras dificuldades de acesso. As a\u00e7\u00f5es exigem consentimento de diferentes atores sociais envolvidos nas respectivas limita\u00e7\u00f5es, conflitos, interesses, culturas, anseios, medos, reivindica\u00e7\u00f5es, frustra\u00e7\u00f5es e sofrimentos. O crit\u00e9rio b\u00e1sico para as avalia\u00e7\u00f5es de metas e efic\u00e1cias no controle de vetores \u00e9 a incid\u00eancia de doen\u00e7as na popula\u00e7\u00e3o, podendo haver risco real de morte. Essas avalia\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o triviais e pass\u00edveis de questionamentos \u00e9ticos. Adicionalmente, o controle cabe ao Estado, que, no Brasil, tem um hist\u00f3rico de aus\u00eancia em suas obriga\u00e7\u00f5es constitucionais em muitos territ\u00f3rios urbanos ocupados por popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis.<br \/>\nDiante dos obst\u00e1culos sociais e ambientais nos complexos espa\u00e7os urbanos brasileiros, continua o artigo, as solu\u00e7\u00f5es propostas com base no paradigma tecnicista integrado t\u00eam sido ing\u00eanuas ou impositivas. Por exemplo, nos programas de combate \u00e0 dengue, foram ing\u00eanuas as diretrizes para o controle do vetor de visitar a cada dois meses 100% dos im\u00f3veis nos munic\u00edpios infectados ou visitar 100% dos im\u00f3veis existentes em localidades com at\u00e9 400 im\u00f3veis, ignorando totalmente o problema da dificuldade de acesso \u00e0 totalidade dos criadouros, em particular dos im\u00f3veis permanentemente fechados. Diante dessas dificuldades, a diretriz legal constru\u00edda como solu\u00e7\u00e3o foi impor a entrada nos im\u00f3veis n\u00e3o acessados, conflitando com o princ\u00edpio constitucional da inviolabilidade do lar e ignorando que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter certeza de que dentro de um im\u00f3vel fechado ser\u00e3o encontrados focos de mosquitos. Ignora tamb\u00e9m as dificuldades pr\u00e1ticas para executar esse instrumento legal nos territ\u00f3rios onde o Estado \u00e9 pouco presente e, n\u00e3o raro, s\u00e3o dominados por grupos civis armados. A aposta de envolver a popula\u00e7\u00e3o para eliminar os focos urbanos do Ae. aegypti atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de maci\u00e7as campanhas publicit\u00e1rias nunca provocou efeito profil\u00e1tico desej\u00e1vel e suficiente, provavelmente por ignorar as v\u00e1rias limita\u00e7\u00f5es sociais e pessoais para atingir e eliminar a totalidade dos criadouros urbanos, provocando um injusto sentimento de culpa nas v\u00edtimas.<br \/>\nDe acordo com o artigo, este cen\u00e1rio imp\u00f5e reconhecer a inadequa\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias usuais para oferecer resultados profil\u00e1ticos desejados, pelo menos, na complexa realidade social e ambiental urbana das cidades brasileiras, sobretudo em comunidades vulner\u00e1veis. Tamb\u00e9m n\u00e3o basta rever as atuais pol\u00edticas e programas de controle. \u00c9 necess\u00e1rio repensar a adequa\u00e7\u00e3o do atual sistema de cren\u00e7as presentes no paradigma tecnicista. A sinergia de obst\u00e1culos psicol\u00f3gicos, sociais e ambientais encontrados pelos servi\u00e7os de controle nas cidades brasileiras evidencia a necessidade de buscar uma vis\u00e3o interdisciplinar para as pol\u00edticas de controle de vetores urbanos. \u00c9 preciso dialogar com outros saberes e outras compreens\u00f5es sem, contudo, negligenciar as bases do princ\u00edpio integrado e suas recomenda\u00e7\u00f5es. Por exemplo, continua fundamental compreender o m\u00e1ximo poss\u00edvel a biologia, a ecologia e o comportamento dos vetores alvo para realizar a\u00e7\u00f5es de controle eficazes. A interdisciplinaridade n\u00e3o conflita com a estrat\u00e9gia integrada.<br \/>\nEduardo explica que a interdisciplinaridade pode ser definida como um ponto de cruzamento entre atividades com l\u00f3gicas diferentes. \u00c9 um conceito que abrange m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es e emerge frente \u00e0s quest\u00f5es complexas a que a inteligibilidade da ci\u00eancia cl\u00e1ssica n\u00e3o \u00e9 capaz de dar respostas satisfat\u00f3rias. Esse conceito n\u00e3o est\u00e1 presente nas cren\u00e7as do paradigma dos m\u00e9todos de controle de insetos, o que \u00e9 compreens\u00edvel, porque foi concebido na tradi\u00e7\u00e3o fragmentada da ci\u00eancia cl\u00e1ssica. No entanto, \u00e9 evidente a import\u00e2ncia de uma compreens\u00e3o interdisciplinar na rotina das a\u00e7\u00f5es de controle de vetores em espa\u00e7os urbanos complexos. \u00c9 tamb\u00e9m evidente que o atual paradigma tecnicista do controle integrado n\u00e3o consegue oferecer resultados satisfat\u00f3rios diante dos obst\u00e1culos encontrados nos complexos ambientes urbanos das grandes cidades brasileiras, sobretudo nos territ\u00f3rios socialmente exclu\u00eddos. Inserir uma abordagem interdisciplinar, com uma vis\u00e3o integrada de diferentes campos de saber, permitir\u00e1 compreender melhor os importantes obst\u00e1culos sociais e ambientais enfrentados pelos servi\u00e7os de controle, especialmente nas complexas \u00e1reas urbanas das cidades brasileiras. O di\u00e1logo com outras formas de saberes, sobretudo no \u00e2mbito social, permitir\u00e1 definir estrat\u00e9gias mais fact\u00edveis e vi\u00e1veis de acordo com as diferentes realidades sociais e ambientais.<br \/>\n\u00c9 conveniente, contudo, segundo ele, que essa nova dimens\u00e3o multidisciplinar seja conduzida com escutas e atitudes emp\u00e1ticas que busquem solu\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas, principalmente nos territ\u00f3rios socialmente vulner\u00e1veis com hist\u00f3rico de viola\u00e7\u00e3o de direitos e processo de exclus\u00e3o. Mais do que uma postura humanista, atitudes emp\u00e1ticas e dial\u00f3gicas estimulam a\u00e7\u00f5es colaborativas e cooperativas de manejo ambiental, extremamente \u00fateis para mitigar os problemas ambientais respons\u00e1veis pela prolifera\u00e7\u00e3o de vetores e implementar a\u00e7\u00f5es de manejo ambiental fact\u00edveis, vi\u00e1veis e eficazes, observando as potencialidades, limita\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas locais, especialmente em comunidades vulner\u00e1veis. \u00c9 conveniente ainda que os profissionais de campo respons\u00e1veis pelo controle de vetores possuam habilidades espec\u00edficas para observar as limita\u00e7\u00f5es e potenciais dos cidad\u00e3os, estimular a\u00e7\u00f5es colaborativas de manejo ambiental para um controle de vetores hol\u00edstico (como mosquitos, ratos, moscas etc.) e articular o suporte de outros profissionais e servi\u00e7os como de assist\u00eancia social, equipes de sa\u00fade da fam\u00edlia e servi\u00e7os de coleta de lixo. Nessa perspectiva, \u00e9 preciso especial capacita\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o dos profissionais de campo dos servi\u00e7os de controle de vetores.<br \/>\nEle acredita que, no futuro, \u201cpode ser que tenhamos solu\u00e7\u00f5es profil\u00e1ticas com vacinas suficientes para o conjunto de arbov\u00edrus, o que n\u00e3o solucionar\u00e1 o problema do controle de vetores, que certamente ser\u00e1 mais f\u00e1cil e vi\u00e1vel ao tornar os espa\u00e7os urbanos mais bem planejados, menos desiguais e violentos, mais humanistas e saud\u00e1veis\u201d. No entanto, para obter um controle vi\u00e1vel e eficaz no atual cen\u00e1rio urbano brasileiro, \u00e9 uma boa aposta promover a\u00e7\u00f5es integradas, interdisciplinares, dial\u00f3gicas, pacientes e cont\u00ednuas, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qu\u00e3o ativo deve ser o papel das revistas e editores na supervis\u00e3o \u00e9tica no processo editorial? 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