{"id":5077,"date":"2021-10-03T12:46:51","date_gmt":"2021-10-03T15:46:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sodf.org.br\/wordpress\/?p=5077"},"modified":"2021-10-03T12:46:51","modified_gmt":"2021-10-03T15:46:51","slug":"mudancas-climaticas-e-savanizacao-da-amazonia-irao-impactar-populacoes-pelo-calor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sodf.org.br\/wordpress\/mudancas-climaticas-e-savanizacao-da-amazonia-irao-impactar-populacoes-pelo-calor\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e savaniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia ir\u00e3o impactar popula\u00e7\u00f5es pelo calor"},"content":{"rendered":"<p>O desmatamento em grande escala da Floresta Amaz\u00f4nica associado \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas aumentar\u00e1 o risco de exposi\u00e7\u00e3o ao calor extremo. Esses n\u00edveis de calor, que ser\u00e3o fisiologicamente intoler\u00e1veis ao corpo humano, afetar\u00e3o profundamente regi\u00f5es onde residem popula\u00e7\u00f5es altamente vulner\u00e1veis, segundo estudo publicado hoje pelos pesquisadores Beatriz Alves de Oliveira, da Fiocruz; Marcus Bottino e Paulo Nobre, ambos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); e Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade de S\u00e3o Paulo (IEA\/USP). Trata-se da primeira an\u00e1lise dos impactos combinados do desmatamento e das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na sa\u00fade humana.<\/p>\n<p>Segundo os resultados do estudo Desmatamento e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas projetam aumento do risco de estresse t\u00e9rmico na Amaz\u00f4nia Brasileira, existe um limite de desmatamento da Amaz\u00f4nia que impactar\u00e1 a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana. Esse limite \u00e9 acompanhado por um \u201cefeito extremo na sa\u00fade\u201d que deixar\u00e1, at\u00e9 2100, mais de 11 milh\u00f5es de pessoas da regi\u00e3o Norte do Brasil expostas ao risco extremo de estresse t\u00e9rmico, quando teremos atingido os limites de adapta\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica do corpo humano devido ao desmatamento. Em outras palavras, n\u00e3o seremos capazes de manter nossa temperatura corporal sem adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pesquisadores enfatizam a necessidade urgente de medidas coordenadas para evitar efeitos negativos sobre as popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis. \u201cOs efeitos locais das mudan\u00e7as no uso da terra est\u00e3o diretamente ligados \u00e0s pol\u00edticas e estrat\u00e9gias de sustentabilidade das florestas, e as mudan\u00e7as nessas \u00e1reas est\u00e3o ao alcance da sociedade. Nessas \u00e1reas, o setor de sa\u00fade poderia ser um importante motivador na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas integrativas para mitigar o risco de estresse t\u00e9rmico e a redu\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade social\u201d, afirma Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz Piau\u00ed.<br \/>\nDesmatamento e aumento da temperatura corporal<\/p>\n<p>Sob condi\u00e7\u00f5es ambientais desfavor\u00e1veis que incluem alta exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 temperatura e umidade, as capacidades de resfriamento do corpo s\u00e3o enfraquecidas, resultando em aumento da temperatura corporal. A exposi\u00e7\u00e3o sustentada a tais condi\u00e7\u00f5es pode ocasionar desidrata\u00e7\u00e3o e exaust\u00e3o e, em casos mais graves, tens\u00e3o e colapso das fun\u00e7\u00f5es vitais, levando \u00e0 morte. Al\u00e9m disso, o estresse causado pelo calor pode afetar o humor, os dist\u00farbios mentais e reduzir o desempenho f\u00edsico e psicol\u00f3gico das pessoas.<\/p>\n<p>\u201cAs condi\u00e7\u00f5es extremas de calor induzidas pelo desmatamento podem ter efeitos negativos e significativamente duradouros na sa\u00fade humana. Precisamos entender globalmente que se o desmatamento continuar nas propor\u00e7\u00f5es atuais, os efeitos ser\u00e3o dram\u00e1ticos para a civiliza\u00e7\u00e3o. Essas descobertas t\u00eam s\u00e9rias implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que v\u00e3o al\u00e9m dos danos \u00e0s lavouras de soja\u201d, afirma Paulo Nobre, do Inpe.<\/p>\n<p>No Brasil, os efeitos combinados do desmatamento e das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 est\u00e3o sendo relatados com base em dados observacionais, com os valores de aquecimento mais extremos relatados em grandes \u00e1reas desmatadas de 2003 a 2018.<\/p>\n<p>Nas modelagens clim\u00e1ticas realizadas pelos pesquisadores, a combina\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a no uso da terra e aquecimento global pode ampliar ainda mais os riscos ocupacionais. Al\u00e9m disso, fatores induzidos pelo homem respons\u00e1veis pela savaniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, como aumento do n\u00famero de inc\u00eandios florestais, bem como expans\u00e3o de \u00e1reas agr\u00edcolas e atividades de minera\u00e7\u00e3o, tendem a impulsionar o crescimento desordenado e um processo de urbaniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o planejado, com falta de infraestrutura sanit\u00e1ria b\u00e1sica e trabalho informal mais frequente. Esses fatores est\u00e3o associados ao processo de desmatamento e ao aumento da desigualdade e da vulnerabilidade, que atuam em sinergia com os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, aumentando ainda mais a demanda por servi\u00e7os de sa\u00fade e prote\u00e7\u00e3o social na regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia brasileira.<\/p>\n<p>Impacto na economia<\/p>\n<p>Os resultados do estudo mostram que os efeitos ser\u00e3o em escala regional, com os maiores impactos diretos na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds. Do total de 5.565 munic\u00edpios brasileiros, 16% deles (30 milh\u00f5es de pessoas) sofrer\u00e3o impactos por estresse t\u00e9rmico com a savaniza\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica. Da popula\u00e7\u00e3o impactada, 42% residem em munic\u00edpios da Regi\u00e3o Norte, que apresenta baixa capacidade de resili\u00eancia e alta vulnerabilidade social. Nesta regi\u00e3o, aproximadamente, 12 milh\u00f5es de pessoas poder\u00e3o ser expostas ao risco extremo de estresse por calor at\u00e9 2100. Com a savaniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e as limita\u00e7\u00f5es na capacidade de adapta\u00e7\u00e3o da Regi\u00e3o Norte do Brasil, a popula\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea poder\u00e1 viver em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de sobreviv\u00eancia, impulsionando efeitos como a migra\u00e7\u00e3o em massa, afirmam os autores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o aumento da exposi\u00e7\u00e3o ao estresse t\u00e9rmico poder\u00e1 impactar v\u00e1rias \u00e1reas da economia, com redu\u00e7\u00e3o da produtividade do trabalho, uma vez que os trabalhadores estar\u00e3o expostos a condi\u00e7\u00f5es t\u00e9rmicas fatais. No Brasil, os trabalhadores ao ar livre j\u00e1 est\u00e3o expostos ao estresse t\u00e9rmico, e as proje\u00e7\u00f5es apontam para um aumento da exposi\u00e7\u00e3o a alto risco nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. O aumento de 1,5\u00b0C na temperatura m\u00e9dia global, com base nas proje\u00e7\u00f5es dos modelos clim\u00e1ticos dos pesquisadores, poder\u00e1 representar 0,84% das perdas de jornada de trabalho at\u00e9 2030, o equivalente a 850 mil empregos de tempo integral, principalmente nos setores agr\u00edcola e de constru\u00e7\u00e3o civil &#8211; na agricultura, o alto risco associado ao trabalho intenso e \u00e0 sobrecarga t\u00e9rmica j\u00e1 foi observado entre os cortadores de cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Nas estimativas dos pesquisadores n\u00e3o foi considerado o crescimento populacional ou mudan\u00e7as na estrutura demogr\u00e1fica ou expectativa de vida. Assim, os resultados expostos no estudo refletem os efeitos isolados da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e da savaniza\u00e7\u00e3o e podem ser interpretados para representar os efeitos que seriam observados se a popula\u00e7\u00e3o atual fosse exposta \u00e0s distribui\u00e7\u00f5es projetadas de estresse t\u00e9rmico. J\u00e1 a vulnerabilidade da popula\u00e7\u00e3o exposta foi avaliada por meio do \u00cdndice de Vulnerabilidade Social (IVS) dos munic\u00edpios brasileiros. Este \u00edndice \u00e9 baseado em 16 indicadores que refletem fragilidades no sistema de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o (capital humano), infraestrutura urbana e renda e trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O desmatamento em grande escala da Floresta Amaz\u00f4nica associado \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas aumentar\u00e1 o risco de exposi\u00e7\u00e3o ao calor extremo. 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