{"id":4543,"date":"2021-08-08T16:19:23","date_gmt":"2021-08-08T19:19:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sodf.org.br\/wordpress\/?p=4543"},"modified":"2021-08-08T16:19:23","modified_gmt":"2021-08-08T19:19:23","slug":"secretaria-desautoriza-hospital-e-mantem-ambulatorio-lgbtqia-no-df","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sodf.org.br\/wordpress\/secretaria-desautoriza-hospital-e-mantem-ambulatorio-lgbtqia-no-df\/","title":{"rendered":"Secretaria desautoriza hospital e mant\u00e9m ambulat\u00f3rio LGBTQIA+ no DF"},"content":{"rendered":"<p>A Secretaria de Sa\u00fade do Distrito Federal garantiu, nesta sexta-feira (6\/8), a continuidade do programa de atendimento ambulatorial especializado em sa\u00fade mental ofertado pelo Hospital Materno Infantil de Bras\u00edlia (Hmib) para a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+. A decis\u00e3o contraria o comunicado feito pela unidade p\u00fablica aos pacientes que dependem do servi\u00e7o e revelado pelo Metr\u00f3poles.<\/p>\n<p>Na nota \u00e0 imprensa, a pasta esclareceu que \u201co ambulat\u00f3rio LGBTQIA+ n\u00e3o ser\u00e1 fechado e vai continuar fazendo parte Hospital Materno Infantil Dr. Ant\u00f4nio Lisboa (Hmib). O atendimento para a popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 interrompido\u201d.<br \/>\nAinda conforme o texto, a inten\u00e7\u00e3o da Secretaria de Sa\u00fade, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 de ampliar o atendimento para este p\u00fablico, em todos os n\u00edveis de aten\u00e7\u00e3o e em todas as regi\u00f5es de sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201cA Subsecretaria de Aten\u00e7\u00e3o Integral \u00e0 Sa\u00fade vai normatizar e regulamentar o atendimento desse ambulat\u00f3rio, que hoje \u00e9 feito no Hmib, para que um maior n\u00famero de pessoas possam ser atendidas e tenham acesso ampliado aos servi\u00e7os ambulatoriais\u201d, garantiu.<br \/>\nDesmonte<br \/>\nA coluna Janela Indiscreta noticiou que os pacientes LGBTQIA+ que dependem do atendimento ambulatorial especializado em sa\u00fade mental ofertado pelo Hmib foram surpreendidos, na \u00faltima quinta-feira (5\/8), com o poss\u00edvel encerramento do programa na unidade, que \u00e9 refer\u00eancia no Distrito Federal. A inten\u00e7\u00e3o, conforme relatos recebidos pelo Metr\u00f3poles, seria priorizar iniciativas relacionadas \u00e0 finalidade do hospital, que \u00e9 focado em maternidade.<\/p>\n<p>Criado no ano de 2018, o ambulat\u00f3rio psiqui\u00e1trico especializado na comunidade LGBTQIA+ tamb\u00e9m auxilia na forma\u00e7\u00e3o dos estudantes de medicina da Escola Superior de Ci\u00eancias da Sa\u00fade (Escs). Caso o programa seja suspenso, cerca de 300 pacientes, em grande parte pessoas trans e autistas, podem ser prejudicados.<\/p>\n<p>A Diretoria de Servi\u00e7os de Sa\u00fade Mental considera que os pacientes contemplados pelo programa n\u00e3o se enquadram em quadros cl\u00ednicos de transtornos mentais ou sofrimentos ps\u00edquicos associados \u00e0 ginecologia ou obstetr\u00edcia. Por isso, a orienta\u00e7\u00e3o desse \u00f3rg\u00e3o \u00e9 que os atendimentos agendados at\u00e9 o dia 31 de dezembro deste ano dever\u00e3o ser encaminhados, para que a diretoria possa remanej\u00e1-los a outros endere\u00e7os da Secretaria de Sa\u00fade, sem que o tratamento seja interrompido.<\/p>\n<p>\u201cEsse ato \u00e9 totalmente preconceituoso. Por que n\u00e3o pode continuar o atendimento psiqui\u00e1trico, sendo que n\u00e3o h\u00e1 outros locais especializados para n\u00f3s na rede p\u00fablica? N\u00e3o faz sentido, a n\u00e3o ser que, por tr\u00e1s disso, haja interesses pol\u00edticos de partidos com tend\u00eancias preconceituosas e de exclus\u00e3o\u201d, disse um paciente trans, autista, que preferiu n\u00e3o ter o nome divulgado.<\/p>\n<p>A reportagem apurou que mais de 470 pessoas aguardam, em lista de espera, o atendimento pelo ambulat\u00f3rio da especialidade do Hospital Dia, localizado na 508 Sul. A institui\u00e7\u00e3o deve acolher a maior parte dos pacientes tratados no Hmib.<\/p>\n<p>Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira para A\u00e7\u00e3o por Direitos das Pessoas Autistas (Abra\u00e7a), Rita Louzeiro \u00e9 autista e atendida no ambulat\u00f3rio do Hmib h\u00e1 pelo menos tr\u00eas anos. Ela teme que a interrup\u00e7\u00e3o da especialidade, a qual acolhe os grupos e respeita a legisla\u00e7\u00e3o vigente, seja um ato \u201cextremamente perigoso para a sa\u00fade emocional e psicol\u00f3gico\u201d de uma comunidade que j\u00e1 \u00e9 negligenciada pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>\u201cO atendimento do Hmib \u00e9 \u00fanico no pa\u00eds, porque consegue fazer intersec\u00e7\u00e3o entre quest\u00f5es neurodiversas e quest\u00f5es do grupo LGBTQIA+. H\u00e1 estudos comprovando que, entre pessoas autistas, a gente tem o maior n\u00famero de pessoas que s\u00e3o LGBTQIA+ do que acontece no grupo do restante da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o autista. Isso interfere na percep\u00e7\u00e3o que profissionais t\u00eam, por exemplo, ao diagnosticar o autismo em pessoas LGBTQIA+, assim como acontece com a popula\u00e7\u00e3o negra\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Servi\u00e7o raro<br \/>\nAdvogada em direitos humanos e consultora de direitos de pessoas com defici\u00eancia, Adriana Monteiro lembrou que a especialidade psiqui\u00e1trica ofertada pelo Hmib \u00e9 rara na rede p\u00fablica do Brasil, o que pode dificultar o tratamento e o acompanhamento dos pacientes.<\/p>\n<p>\u201cVejo todos os dias no escrit\u00f3rio a dificuldade que as fam\u00edlias atendidas para esse tipo de servi\u00e7o especializado t\u00eam \u2013 n\u00e3o s\u00f3 aqui no DF, mas no Brasil todo. O Hmib deveria se orgulhar da oferta desse servi\u00e7o e a secretaria [de Sa\u00fade] tamb\u00e9m, porque \u00e9 um servi\u00e7o muito raro. Embora ele seja um hospital de alta complexidade, tamb\u00e9m faz o atendimento terci\u00e1rio, secund\u00e1rio. Tanto que o hospital oferece as especialidades de otorrinolaringologia, oftalmologia, dermatologia, entre outras; e isso n\u00e3o pode se dizer que \u00e9 um servi\u00e7o exclusivo da gestante pu\u00e9rperas que est\u00e3o l\u00e1\u201d, ponderou.<\/p>\n<p>Para a diretora de Diversidade da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), Susana Xavier, pessoas LGBTQIA+ imersas em ambientes violentos tendem a adoecer. Assim, o acompanhamento especializado, com respeito a essa realidade, \u00e9 mais do que necess\u00e1rio para garantir a sa\u00fade mental de todos os pacientes atendidos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o pode ser um tratamento de forma generalizada, mas tem que ser conduzido por especialistas que compreendam que esses indiv\u00edduos est\u00e3o expostos a todo tipo de viol\u00eancia, fruto dessa rejei\u00e7\u00e3o pela sociedade. Ent\u00e3o, quando se trata precisamente de pessoas trans, travestis, n\u00e3o bin\u00e1rias, bissexuais, mulheres l\u00e9sbicas, \u00e9 muito dif\u00edcil de se encontrar, nos servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablicos, profissionais que compreendam essa especificidade e que deem um tratamento qualitativo, um tratamento digno a essas pessoas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O ativista Christiano Ramos, que preside a ONG Amigos da Vida \u2013 especializada no acolhimento da comunidade vulner\u00e1vel LGBTQIA+ \u2013, lembrou que, no ano passado, em parceria com empresas, construiu um espa\u00e7o, no Hmib, especializado no atendimento de mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia e tamb\u00e9m da comunidade trans.<\/p>\n<p>\u201cImagina s\u00f3 que, em tempos de pandemia, quando todo mundo est\u00e1 aflorando os transtornos psicol\u00f3gicos e lutando pela sa\u00fade mental, um servi\u00e7o desse acaba. \u00c9 muito preocupante\u201d, alertou.<br \/>\nO que dizem os envolvidos?<br \/>\nQuando a reportagem foi publicada, a m\u00e9dica psiquiatra Kyola Vale, respons\u00e1vel pelos atendimentos na unidade hospitalar da Secretaria de Sa\u00fade desde 2018, afirmou ter tomado conhecimento sobre a decis\u00e3o administrativa da institui\u00e7\u00e3o, mas que ainda estava se inteirando sobre o assunto.<\/p>\n<p>\u201cTenho esperan\u00e7a de que tal posi\u00e7\u00e3o seja revertida, uma vez que n\u00e3o existem outros espa\u00e7os de inser\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o, principalmente porque a maioria deles tamb\u00e9m apresenta neurodiversidade. A grande maioria s\u00e3o pessoas autistas e que v\u00e3o ficar sem atendimento\u201d, resumiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Secretaria de Sa\u00fade do Distrito Federal garantiu, nesta sexta-feira (6\/8), a continuidade do programa de atendimento ambulatorial especializado em sa\u00fade mental ofertado pelo Hospital Materno Infantil de Bras\u00edlia (Hmib) para a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+. A decis\u00e3o contraria o comunicado feito pela unidade p\u00fablica aos pacientes que dependem do servi\u00e7o e revelado pelo Metr\u00f3poles. 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